Reconstruir o mundo duas páginas de cada vez
25 de abril sempre constitui uma das mais complexas, dinâmicas e originais representações da sociedade portuguesa na ficção contemporânea. Tomando como eixo narrativo a singularidade, simultaneamente concreta e imaginada, da revolução de 1974 enquanto processo e projeto de transformação, o romance agarra o leitor pelos colarinhos e atira-o contra o chão. Como se reconhece a mudança, mas também a persistência, de um conjunto de estruturas sociais e mentais? Que vida vivemos dentro das possibilidades existenciais que um determinado universo familiar, económico e político nos reserva? Como pode a arte da linguagem dar conta dessa estranha paralaxe entre a existência histórica individual e a existência histórica coletiva?
A resposta toma a forma de um puzzle narrativo meticulosamente desmontado nos seus dois níveis de articulação: primeiro, através das peças que é necessário encaixar dentro de cada uma das dezassete partes do romance; depois, através da montagem de cada uma dessas partes no todo da narrativa. Se o dinamismo da obra decorre do duplo jogo de inferências que o leitor tem de fazer para juntar as peças, a sua força sobre a imaginação vem da poderosa ressonância cognitiva e emocional com que as frases o agarram e o conduzem a cada linha. Dessa tensão fractal entre a composição da frase e a arquitetura narrativa depende a intensidade da experiência de imersão literária de 25 de abril sempre.
Máquina de multiplicar narradores e personagens, caleidoscópio de estilos e géneros (da narrativa neorrealista à ficção científica, da série de televisão ao discurso científico e filosófico, do romance de formação à saga familiar), 25 de abril sempre entrelaça alusões à história das últimas décadas com uma visão crua da realidade material da existência humana. Por vezes, como se uma delicada nesga de luz incidisse na superfície da página, o texto deixa-se ver em processo de escrita. Duas páginas de cada vez, reconstrói-se o mundo, com lucidez, empatia, invenção. António Rito Silva consegue assim dar concretude literária ao 25 de abril enquanto experiência histórica e discursiva que não alterou substancialmente as condições de reprodução social. Nenhum outro livro nos oferece um mergulho com esta profundidade e com esta leveza.
Manuel Portela