O Urso Paranóico

Era uma vez um urso, muito, mas mesmo muito fofo. Até mais fofo do que é habitual num urso, que os ursos  já são por natureza bastante fofos. Então não são os ursos como uns cães muito grandes? Então, não são os cães fofos? Então, o que pode ser um urso, que é bem maior do que um cão, senão muito fofo?

O que é que o fazia dele ainda mais fofo que um urso normal, que já vimos ser, por seu próprio feitio e forma, muito fofo?

Aqui as opiniões dividem-se conforme quem lhe encontra a fofura.

Algumas dizem que é por ter o olhar de quem perdeu a mãe, o que faz despertar nos que o observam um sentimento maternal de amor e proteção.

Outras dizem que é aquele vozeirão de urso que parece que antes de lhe chegar à boca já percorreu uma enorme distância, tão lá de baixo a voz vem, que como vimos os ursos são muito grandes e se a voz tiver origem ali por alturas do umbigo, demorará bastante a chegar cá fora.

Também há quem diga que é por ser um urso de cabeça no ar que muitas vezes se distrai e vai de encontro às árvores, ficando ainda com um ar ainda mais atarantado como resultado da pancada, o que nos faz surgir um sorriso nos lábios e a nossos olhos lhe dá um ar ainda mais fofo.

E muitas mais razões se encontram para explicar a sua fofura, tantas como aqueles que o acham fofo, que o mundo é mesmo assim: Cada um lá encontra o seu deslindamento para aquilo que o encanta.

Contudo, não vos deixeis levar pelo seu feitiço, devo-vos avisar que o urso é muito perigoso, pois é manhoso, mentiroso e interesseiro, muito, muito interesseiro, e acima de tudo, até me sinto um pouco incomodado ter de o dizer, mas é mesmo assim, este urso é paranoico.

Para não serdes vítimas dos seus ardis, e sucumbirdes à sua suposta fofura, escrevo eu esta história, para que saibais como ele é e como deveis agir quando com ele vos cruzardes, se esse percalço tiverdes, que o melhor é nunca, mas mesmo nunca, o urso paranoico se vos aparecer no caminho.

Agora deveis estar a perguntar-vos: O que é um urso paranoico?

Bom, poderia responder-vos que é um urso bipolar e esquizofrénico, mas isso seria dizer pouco, pois este urso está sempre um passo à nossa frente. Quando estamos convencidos de que ele é uma coisa, por muito má que ela seja, observamo-lo de acordo com essa ideia e acabamos por chegar à conclusão de que ele não é só assim, é de facto bem pior.

É por ser o urso paranoico um animal difícil de entender, que está sempre a nos procurar trocar as voltas com as suas manhas e artimanhas, que vos tenho de contar esta história.

– O que é “trocar as voltas”? – perguntareis vós.

Quer dizer que, quando começamos a conversar com ele tomando como certo o que achamos acerca dele, ele parece que percebe o que estamos a pensar e começa a agir de forma a que pareça que estamos enganados. Essa é a sua grande artimanha.

Se essa é a artimanha, então qual é a manha dele? – questionareis vós de novo, que já percebestes a importância de tudo saber sobre o urso paranoico e não quereis deixar nada por aprender.

A manha, é como a palavra indica, a artimanha sem arte. Quando está a fazer a artimanha, o urso acha que é muito esperto e que nos troca as voltas, como vos expliquei. Agora, quando está a fazer a manha, é quando finge que é um pobre coitado e fica assim com um ar indefeso a reclamar de que os outros apenas lhe fazem mal.

Mas então, dirão os mais atentos: Isso não é também uma artimanha?

Pois é, poderia ser uma artimanha se nós não percebêssemos logo que isso era manha do urso paranoico. Ora, as manhas qualquer um entende, como quando o vosso irmão mais pequeno está, por exemplo, a choramingar para que os vossos pais lhe comprem qualquer coisa, que todos nós sabemos, especialmente vós, que sois mais velhos, que lhe faz mal.

– Ah, – dirão os que já perceberam – artimanha é uma manha feita com engenho!

Exatamente, agora não me pergunteis por que é artimanha e não é engenhomanha. Embora vos possa dizer que, se procurardes no dicionário por um sinónimo de arte, encontrareis engenho, já se procurardes pela palavra engenhomanha não a ireis achar de todo. É por isso que só podemos usar as palavras do dicionário, se quisermos que os outros nos entendam, embora nós gostemos de pensar pela nossa cabeça e chegar às nossas próprias conclusões, mas quando as queremos pôr cá fora tem de ser com as palavras do dicionário, caso contrário, mais vale estar calado.

Suponho que agora, alguns de vós, levados pela inocência, pois sois daqueles que pensam poder olhar para as coisas como elas mesmas são, sem precisar de usar o dicionário, podeis estar a pensar que podemos ser nós que estamos enganados acerca do urso paranoico, que tudo isto é conversa e que devemos olhar para o urso sem preconceitos, tentando perceber como ele mesmo é.

Pois é, pior pensamento não podereis ter. Espero, por isso, que no fim desta história sejais capazes de identificar um urso paranoico e não caiais nos seus ardis, manhas e artimanhas. E olhai que não é fácil, sendo necessário estar sempre alerta. Por isso, irei contar a história por partes, de forma que de cada uma obtenhais uma lição.

O Texugo Engraçado

De certeza que já ouvistes falar do texugo engraçado. É um animal pequeno, sempre com um olho à espreita, atento ao que se passa à sua volta, e com algum jeito para a graça com aqueles olhinhos vivos e nariz palpitante. E foi com esses olhinhos que ele logo percebeu como era o urso paranoico, dizem mesmo que foi o primeiro, que ao olho espertalhão do texugo engraçado nada escapa.

O texugo até era amigo do urso, amigo, que é como quem diz, viu o urso encostado a uma árvore e olhar muito absorto para as folhas e ficou com curiosidade de saber se poderia dali tirar alguma coisa, que o texugo adora conviver com os outros animais e por isso gosta sempre de ter uma chalaça pronta, fresca, para contar.

Como é que se pode fazer piada com um urso absorto?

É que o texugo é um animal muito prático, com uma dieta muito diversificada, pelo que está sempre à espreita do que se possa alimentar, uma vez que qualquer coisa pode ser uma fonte de alimento. Já o urso, embora também tenha uma alimentação variada, gosta especialmente de mel e por isso lhe dá para ser meditabundo. Especialmente o urso paranoico, que meteu na cabeça que um mundo perfeito seria uma terra de ouro e mel.

Por isso, quando o urso paranoico olhava as folhas das árvores, e a passar entre elas os raios dourados do sol, imaginava o mel a descer dos céus e a cobrir todo o mundo.

Ora, ora, nada pior do que estes ursos idealistas, deles mofava o prático texugo que dizia com gosto:

– Não interessa o que está no prato para o texugo encher o papo, enquanto o urso se abastece de ideias balofas e por isso tem o que merece.

E toda a razão tem o texugo engraçado, que todos nós nos devemos concentrar no provimento do alimento.

Então, o texugo, que é danado para a brincadeira, ia sentar-se ao pé do urso com um ar muito sério, mas todo ele a rir por dentro, e dizia-lhe:

– São lindas as folhas, não são?

O urso olhava com ternura para o texugo e pensava:

– Na terra de ouro e mel, até as listas brancas do focinho dos texugos serão douradas.

Vede bem o que vai pela cabeça do urso paranoico. Perfeitas idiotices. Então todos sabemos que as listas brancas no focinho do texugo estão lá para baralhar as formigas, quando ele enfia a cabeça na entrada do formigueiro, que o movimento do afocinhar, entre o branco e o preto, as deixa baralhadas, como se de repente o dia e a noite fossem alternando várias vezes num intervalo de poucos segundos. Enquanto as formigas, que não há animal mais bem-comportado e de rotinas como a formiga, estão a reagir às mudanças entre o que lhes parece ser o render do dia e a noite, começando a sair e a regressar ao formigueiro, conforme vai parecendo ser dia ou ser noite, respetivamente. São assim agarrados pela língua peganhosa do texugo, que rapidamente as engole, que é um regalo.

É verdade que o texugo engraçado não sabe ler pensamentos, e por isso não sabe do que o urso cogitou, mas daquela expressão ternurenta tomou ele nota e, como o urso é um urso e não uma texuga fêmea, aquilo só pode ser obra de uma cabeça estouvada, que o texugo, a constituir família, é para ser como viu fazer ao pai e à mãe texugos.

Por isso, quando o texugo se encontrou com a grande águia, disse-lhe com toda a certeza, procurando puxar para a laracha e agradar à águia testuda:

 – O urso é um caramelo.

A águia olhou com os seus olhos em bico para o texugo sorridente, de cabeça estendida e dentinhos à mostra, abanou um pouco a cabeça, fazendo com que o vento lhe levantasse as penas do pescoço, e nada fez ou disse.

O texugo engraçado, que sabia que a águia era a rainha do provimento, ficou um pouco preocupado por não ter tido resposta, pois estava tão habituado a que lhe achassem graça que até sentiu como se lhe fugisse o chão debaixo dos pés. Foi por isso que, quando encontrou o urso junto à árvore, a ele se juntou e disse com uma camaradagem melancólica nada habitual dele, quase como numa queixa:

– A águia não tem sentido de humor.

O urso paranoico olhou surpreendido para o texugo engraçado. Pareceu-lhe que este o estava a avisar de alguma coisa, mas tão compenetrado estava com a terra de ouro e mel que não deu muita importância ao que ouvia. Pensou, em vez disso, que o texugo se preocupava demasiado com as coisas comezinhas do dia a dia em vez de se concentrar nas coisas importantes, que era o que o urso fazia quando se sentava debaixo da árvore sem fazer nada.

Como vistes, o urso sonha mais do que realmente come, enquanto o texugo come mais do que sonha, e isso faz toda a diferença. Por isso mesmo, é mais fácil encontrar um urso paranoico do que um texugo com fome.

Comer pouco não faz bem à cabeça, pelo que a fraqueza desta começa com a debilidade do corpo. Claro que a terra de mel é uma terra impossível, como o texugo engraçado bem sabe, ainda assim, se existisse mesmo, não acham que o urso não se iria fartar do mel passado pouco tempo?

Pois é, o urso já pensou nisso e acha mesmo que não, pois para ele é tudo. E é tão paranoico o urso que até pensa assim:

– Quando chegar à terra de mel, vai ser tão bom que até sou capaz de deixar de comer.

Ora, ora, isto é que é. Já viram? Afinal, gosta o urso de mel, sonha com uma terra de mel, e diz que quando lá chegar não vai precisar de comer. Faz isto sentido algum?

A mim parece-me bem que não faz sentido nenhum. Já o urso acha que o texugo nunca o conseguirá entender, mas pensa que compreende o texugo e por isso sente essa ternura por ele. Sabem, uma coisa, lá no fundo o urso acha-se superior ao texugo, embora nunca o tenha dito.

Por isso vos digo: mil vezes mais vale serdes como o texugo engraçado do que como o urso paranoico.

A Girafa Educada

Sabeis como são as girafas. Altas, altas, até dizer mais não. São umas verdadeiras senhoras, muito, muito elegantes, quer de pescoço quer de pernas, finas, finas, finas. Até parece impossível. Que animal grande é a girafa e, no entanto, que delicadeza. Desloca-se como se usasse sapatos de salto alto, o que, já sendo a girafa, ela própria, um animal bem alto, faz com que pareça ainda maior. Mas que equilíbrio, que graciosidade tem a girafa quando anda. Lembra a mais fina porcelana. Daquela que se calhar a vossa mãe guarda dentro de um armário fechado à chave, e que vós não podeis tocar, apenas ver através do vidro. Uma porcelana deixada por uma tia-avó que nunca casou.

Pois é dessa loiça feita a girafa educada. Não há outra igual para convidar para tomar chá. Entra-nos pela casa adentro, que é uma verdadeira simpatia. Passa-se ali uma hora na conversa que é uma delícia. Beberica um golinho de chá, esticando o seu gracioso pescoço, e depois dá dentadinhas na bolacha de manteiga com a ponta dos dentes puxados para fora, os lábios repuxados atrás e um chique ondular de pescoço que lhe vai da cabeça às omoplatas. E sai-nos de casa a girafa educada da mesma forma que entrou: fica tudo na mesma, a não ser uma forte e simpática impressão.

Mas não é só isso. Que a girafa é muito conversadora, e embora a incomode muito falar da vida dos outros, muitas vezes não tem outro remédio, que por andar com a cabeça lá por cima, nada lhe escapa, vê todos os outros animais cá em baixo, macacos a baloiçar-se dos ramos, pardais a chilrear, até os elefantes ela os vê pequenos, mas o que lhe faz mais impressão é o urso encostado no tronco da árvore, sem nada fazer, com os olhos na terra de ouro e mel.

Por isso, quando vem ao chá, embora não esteja no seu feitio coscuvilhar, que vós sabeis que é muito feio falar dos outros, acaba por dizer sempre alguma coisa acerca do urso. E não diz muito. 

– Que lá passa ele todo o santo dia sentado, de cabeça no ar, a olhar para os raios de sol a passarem através das folhas. O que irá dentro da cabeça daquela pobre criatura?

O que mais a chateia, e isso tem ela de contar, é que quando mete a sua cabeça por entre a copa da árvore para observar o urso, este, em vez de a cumprimentar, como fazem todos os animais educados da floresta, limita-se a sorrir. Com um sorriso bonito, é verdade, mas um sorriso sem sentido algum. Por vezes, até a girafa fica com a sensação de que ele nem sequer está a sorrir para ela.

A girafa educada, como todos os animais bem educados, é muito sensível às indelicadezas, e o urso parece-lhe bastante descortês. Até os macacos, e vós sabeis como são os macacos na macacada, sempre às voltas nos ramos a pregarem partidas uns aos outros, mas mesmo assim, os macacos, quando vêm os longos bonitos olhos da girafa lá em cima, entre as folhas, a olhar para com um olhar interrogativo para as suas palhaçadas, os macacos fazem uma pausa para dizerem:

– Como está a senhora Girafa?

Que, embora não sendo bem uma pergunta, ainda que termine com um ponto de interrogação, serve também para dar conta dela ao resto da macacada, parando então todos imediatamente com a brincadeira, ficando um sossego naquelas copas até ela se ir embora.

Mas o urso não é como os macacos, olha para a girafa educada como se ela não estivesse lá, e sorri, sorri sem sentido, o que acima de tudo é uma falta de respeito. É por isso que, quando vem para o chá, a girafa não resiste a observar:

– Dizem que o urso é paranoico, eu não sei, mas de facto, aquele comportamento, aquele riso para lado nenhum, não me parece lá nada normal.

E diz isto enquanto sorve um pouco mais de chá, com os dentes para fora e os lábios puxados para trás, como é de bom-tom entre as girafas educadas.

Alguns de vós devem estar a questionar-se que não é assim que se bebe chá, que a girafa parece ter a mania de ser educada, mas não é nada educada, até muito pelo contrário, é muito má educação beber chá ou qualquer outro alimento com os dentes para fora, que aquilo que os vossos pais vos ensinaram é mesmo o oposto, que se deve colocar os dentes para dentro e os lábios para fora. Ensinaram-vos, e muito bem, que quando se come nunca se mostram os dentes. Mostram-se os dentes para sorrir, nunca para comer.

– E sabeis vós por quê?

Pois os dentes têm as mais variadas funções, sendo duas delas mastigar e sorrir. Mastigar para triturar os alimentos e transformá-los no bolo alimentar antes de os puxar pela garganta abaixo. Já sorrir é para obrigar os músculos da face a irem para trás e fazerem aquelas bolinhas de carne muito queridas debaixo dos olhos e à frente das orelhas.

– Então, o que é a educação? Perguntareis vós.

– A educação é não misturar as funções, mesmo que elas sejam feitas pelo mesmo órgão. Não sorrir ao mastigar, nem mastigar ao sorrir.

Nunca a vossa mãe vos disse:

 – Não se fala com a boca cheia!

Ora aí está outro sinal de má educação, falar é uma coisa e comer é outra. Não se fala a comer, não se ri a falar e não se come a rir.

Reparem agora por que é que as girafas são educadas: quando sorriem, não mostram os dentes. Como vos disse, educação é não misturar as funções. Se para escolher e arrancar as folhas das árvores a girafa tem de colocar os dentes para fora, não lhe ficaria nada bem mostrá-los para rir. Sendo educada, como a girafa é, o que ela faz para rir é morder os seus lábios com ambos os dentes e alongar ainda mais os seus longos olhos. Fica assim, como se estivesse a encher-se de ar e a explodir por dentro.

Diz-se, por isso, que a girafa come com os dentes e ri com lábios e olhos inchados. E se ri assim, como é que consegue fazer as bolinhas de carne debaixo dos olhos e à frente das orelhas?

A verdade é que não as faz. Por isso, é preciso compreender a girafa para saber quando é que está a rir.

– Compreender a girafa para compreender a girafa? – Perguntareis vós, e exclamareis: – Que coisa mais esquisita!

Pois é, no mundo dos animais há coisas muito esquisitas que, por vezes, levam tempo a entender. E quando acabamos por entender, não percebemos muito bem por que é que entendemos.

Então é assim. As girafas também riem, mas pela sua educação não riem como os outros animais. 

De facto elas sorriem todas com os olhos, alongando-os mais, enquanto fazem um leve acenar com a cabeça.

Como estão a ver, é por isso que o urso não é educado, sorri para o vazio quando deveria cumprimentar. E é por não ser educado que a girafa está a ficar convencida de que ele só pode ser paranoico.

Como é que a girafa sabe que ele é paranoico e não é antes troglodita, ou energúmeno, ou gabirú, ou uma outra coisa qualquer?

Bom, pois ouviu de um macaco, que ouviu de um outro macaco, que diz que disseram que quem disse foi o texugo engraçado.

Ora, ora, a girafa, que percebeu que o urso não era educado, pois ria para as folhas das árvores quando estava a pensar na terra de ouro e mel, e também não é educado misturar a função do pensamento com a função do rir. Com certeza já ouvistes dizer:

– Parece que não está bem do juízo, ri sozinho!

E de facto isso é bem verdade. Pois pensamos para ajuizar, quem tem juízo porta-se bem, não ri por tudo e por nada.

Então, isto foi suficiente para a girafa educada concluir que o urso, não sendo educado, teria de ser outra coisa qualquer, e como o paranoico era o que estava mais à mão, como os macacos disseram que o texugo engraçado tinha dito. 

Ainda que, aqui, ninguém nos ouve, o urso não se importaria de ser gabiru. Ele não sabe o que é um gabiru, mas gostou do nome uma vez que o ouviu de um mocho já muito velho, que estava em cima do mesmo ramo há muito tempo, que quando passaram numa correria um grupo de jovens esquilos que lhe fizeram abrir os olhos e disse com um ar ensonado:

– Gabirus.

E claro que, como o urso é um animal que se põe muito a pensar, começou logo a imaginar se os gabirus gostariam de mel, se até se passariam os dias a sonhar com a terra de mel. E logo concluiu, que não deveriam gostar, pois os que sonham com a terra de mel ficam muito paradinhos a concebê-la de todas as formas e feitios imagináveis, enquanto que os esquilos, quer dizer, os gabirus, ala, ala, que parar não é com eles.

Ainda assim, o urso pensou que, se não houvesse terra de ouro e mel, não se importaria de ser gabiru.

Alguns de vós, aqueles que nestas histórias estão sempre a fazer perguntas, podeis estar com vontade de defender o urso paranoico e dizer que a girafa também não é muito educada, uma vez que mostra os dentes quando come.

Pois é, até faz algum sentido a vossa questão, mas perdeis o vosso tempo, como todos os outros que anteriormente questionaram o que se dizia acerca do urso, acabaram inevitavelmente por ter que concluir o óbvio, o urso paranoico é paranoico. 

Ademais, é por causa desta mania, que na opinião da girafa, a juventude tem em fazer perguntas, que decidiu que iria dedicar o seu tempo a alertá-la para o perigo do urso paranoico.

Assim, a girafa muito bem decretou: o urso paranoico parece que não faz mal a uma mosca, mas a verdade é que ele é um perigo para a juventude.

O Mocho Pesquisador

Uma das características que deveis saber acerca do urso paranoico é que ele facilmente se torna amigo de qualquer desconhecido que com ele se cruze na floresta. A girafa, que agora não perde uma oportunidade para o trazer debaixo de olho, até costuma comentar com desdém:

– É um urso de amizades à primeira vista.

Mais não posso concordar com a girafa educada, o urso paranoico anda tão iludido com a terra de ouro e mel que sempre que encontra alguém logo nele imagina um compincha de viagem. Imediatamente sonha que poderão ir os dois em busca dela, mesmo que o façam enquanto estão sentados debaixo de uma árvore em alegre cavaqueira, partilhando algum farnel que tenham trazido para a jornada.

Deveis, os meninos, estar agora a pensar que isso não é mau, até é mesmo muito bom darmo-nos bem uns com os outros, que foi assim que vos ensinaram.

E isso é bem verdade, mas uma coisa é tratarmos todos com a consideração que merecem, já outra, bem diferente, é sermos amigos de toda a gente. Ademais, é por causa de querer ser amigo de toda a gente que o urso paranoico tem tão poucos amigos, se é que ele terá efetivamente algum.

Já imagino que deveis estar confusos, afinal, qual é a diferença entre amizade e consideração?

Pois é. Se não estivésseis baralhados com a vida do urso paranoico, também não valeria a pena contar-vos esta história. Contar-vos-ia uma da terra de ouro e mel e ficaríeis satisfeitos, ainda que com essa história pouco aprenderíeis. 

Então, é assim, a consideração é o que se sente por uma outra pessoa que se conhece mal, mas com quem nos relacionamos no dia a dia. Por exemplo, um vosso vizinho que se encontra no elevador do vosso prédio. Diz-se a ele:

– Bom dia, como está. E a sua esposa também está bem. 

E diz-se isto que parece uma pergunta, mas na realidade, como deveis ter notado, nem sequer tem interrogações. Aqui está, portanto, algo que ficais a saber acerca da consideração. Na consideração, não se levantam questões, mesmo que assim pareça. 

Alguns de vós deveis estar a ler isto com uns olhinhos desconfiados. Então não se vê logo que há ali dois erros. Que se escrevêsseis isto e désseis ao vosso professor de português, ele logo diria que faltam ali dois pontos de interrogação. O primeiro, quando se diz: como está. O segundo, quando se pergunta pela esposa.

Pois é, imaginai que, como resposta, vos diz o vosso vizinho que não tem andado muito bem e que a sua esposa, infelizmente, também não. Uma resposta de muito pouca consideração, pois até parece que o nosso vizinho quer afinal ser nosso amigo e nós ainda não lhe démos confiança para isso.

Portanto, é a consideração que nos permite falar com as pessoas sem sermos amigos delas.

Por isso, quando ouvirdes Beltrano dizer:

– Tenho muita consideração por Sicrano. Podeis ter a certeza de que Sicrano não é amigo de Beltrano.

Deveis estar com curiosidade de saber quem são Sicrano e Beltrano. Pois, a resposta é muito simples, são os Fulanos que encontramos no elevador. Pessoas por quem temos muita consideração, mas de quem não sabemos, nem queremos saber, nada, a não ser que são os vizinhos do quarto esquerdo.

E o que se passa com as pessoas ocorre também com todos os outros animais. O urso paranóico, que confunde a consideração com a amizade, quando se cruza com alguém na floresta, logo começa a falar com esse animal como se de um amigo se tratasse. Faz perguntas a sério. Daquelas com pontos de exclamação e tudo. E pior, se lhe fazem perguntas a ele, logo dá as respostas com a maior das sinceridades. O que, como ireis ver, lhe vai trazer muitas desgraças.

Agora que já percebeste a diferença entre amizade e consideração, nessa vossa cabecinha curiosa já deve estar a saltar uma nova questão sobre o que disse lá mais atrás e que ficou às voltas nessa vossa mente ávida.

– E como é que se pode não ter amigos apenas por querer ser amigo de todos?

Pois essa é uma pergunta muito interessante. Ainda mais difícil de responder do que a anterior. 

O que se passa é que, os animais estão mais habituados a ser tratados com consideração do que como amigos. Reparem como a girafa educada gosta de ser tratada. Os macacos sabem bem disso. Mesmo entre os macacos, os macacos mais pequenos tratam os macacos maiores com a maior das cautelas, quer dizer, das considerações.

Por isso quando alguém fala com eles com os pontos de exclamação todos, ou se fecham como um ouriço-cacheiro, ou então barafustam, mas acima de tudo ficam desconfiados.

Não é que no início não respondam às perguntas como se de uma prova de amizade, mas de facto fazem-no é por consideração. E isso é só no início. Depois ficam com curiosidade de saber que animal é aquele que se põe assim à conversa com qualquer um sem menor respeito pelas considerações.

Para perceberdes por que é que tratar todos como amigos não faz amigo nenhum tenho de vos contar o que se passou entre o urso paranoico e o mocho pesquisador.

Os mochos pesquisadores são aparentados dos pelicanos pescadores, que são aves muito empreendedoras, pois não apenas pescam como também acumulam na bolsa grandes quantidades de peixe. Por isso, enquanto a maior parte dos animais apanha a comida para comer, os pelicanos são frequentemente vistos a pescar apenas para juntar mais e mais peixe.

– Se não o comem, que fazem os pelicanos pescadores aos peixes?  

Pois é, muito boa pergunta. Fazem as mais variadas coisas. Desde o secarem para comer mais tarde, até o trocarem por outra comida que os pelicanos têm dificuldade em apanhar.

Convém não nos desviarmos do objetivo desta história, que é explicar-vos como é que o urso é paranoico, e o que é isso de se ser paranoico, e, acima de tudo, por que é que não devemos nunca ser paranoicos como o urso paranoico. Que esta história também tem, como não podia deixar de ser, uma moral.

Então o mocho pesquisador é aparentado do pelicano pescador e essa familiaridade vem de o mocho também gostar de juntar o resultado do seu trabalho, no seu caso é conhecimento.

Quando vêdes o mocho em cima de um ramo, parado, a fazer uma apresentação, podeis ter a certeza que ele está a fazer uma síntese de todo o conhecimento adquirido e a levantar perguntas sobre o que falta aprender. Costuma-se mesmo dizer que na floresta são os mochos pesquisadores que fazem avançar o conhecimento.

Um dia, a girafa educada, já depois de ter passado muitos dias a observar o urso paranoico debaixo da árvore sem fazer absolutamente nada, a não ser um ocasional esfreganço no tronco da mesma, o que lhe dava uma enorme satisfação, a sensação mais próxima do que o urso imaginava ser estar na terra de ouro e mel. Nesse dia, encontrou a girafa a águia testaruda, muito por acaso, que a águia sempre muito atarefada não era fácil de achar, uma vez que eram inúmeras as suas responsabilidades na floresta.

Foi então nesse dia, aquele em que a girafa encontrou a águia, que a girafa aproveitou logo para lhe comentar que o urso paranoico passava todo o dia sentado debaixo da árvore, mesmo que ela, girafa, se fosse lá colocar de forma bem visível, para ver se o urso reagia. Disse assim a girafa:

– Nem sei bem o que pensar, às vezes fico convencida que o urso me viu, outras não tenho a certeza, pois ele não se mexe, é verdade que por vezes sorri, como aquele sorriso tonto, ainda que não tenha certeza se de facto sorri para mim, ou se sorri apesar de mim.

A águia testaruda, que por uma razão que ela própria desconhecia, era a fiel depositária de todas as reclamações, observações, comentários e interrogações do que passava pela cabeça dos animais da floresta, sentia por isso a responsabilidade de dar uma resposta.

A águia estava mesmo convencida que era a responsável pela ordem da floresta. Significando para ela ordem que cada animal fizesse o que lhe foi destinado pela criação, nem mais nem menos, e não andar com perguntas desnecessárias que não levam a lado nenhum, a não ser ao fim do bom funcionamento da floresta.

Andava a águia já há algum tempo preocupada com o urso. Não se tinha esquecido do que lhe disse o texugo engraçado. Aquela coisa da terra de ouro e mel não lhe parecia nada bem, pois não tinha nada a ver com a criação. Se houvesse uma terra de ouro e mel, essa terra teria os seus próprios animais que lá teriam de fazer alguma coisa e não ficarem sentados sem fazer nada debaixo de uma árvore.

Verdade se diga, que para a águia testaruda, não havia nada pior do que não fazer nada. Estava mesmo convencida que não fazer nada era a raiz de todo o mal. 

– Quando estamos a fazer alguma coisa estamos entretidos. Dizia a águia sempre que falava em público.

Estava a águia certa de que aqueles que não fazem nada, fazem perguntas, e perguntas bem sem sentido, uma vez que são perguntas sobre o nada que fazem.

– Nada pior para a ordem natural da floresta do que as perguntas sem sentido. Dizia também a águia, sempre que tinha oportunidade, como resultado do que tinha aprendido nos seus anos de responsabilidade na floresta.

Andava por isso bastante preocupada com o urso paranoico. Temia que se as suas ideias desvairadas acerca da terra de ouro e mel pudessem começar a contaminar mais animais, e nada lhe tirava mais o sono do que imaginar uma floresta pejadas de animais sentados debaixo de árvores com os olhos no vazio a filosofar.

Era mesmo um pesadelo, e para verdes como era bem grande, até conseguia imaginar os próprios macacos a filosofar. Macacos sentados, cada um no seu galho, com o queixo apoiado no punho fechado e pensativos, sem nada fazerem. Agitava-se no sono a águia sempre que esta imagem a percorria, era quase uma raiva que sentia, pior do que estar na macacada era estar a pensar sem fazer nada. E depois, era tão forte o bater do coração, que acordava sobressaltada, convencida de que a culpa era do urso paranoico, e se nada fizesse, a floresta poderia tornar-se num lugar onde os animais deixavam de naturalmente serem os animais que eram de acordo com a criação.

Vêde que enorme peso têm todos aqueles cuja responsabilidade é a ordem da floresta. E o pior é que, uma vez acordada, em vez de gracejar e rir-se do pavor, e dizer, foi só um pesadelo, a águia mantinha uma expressão séria. Como vos expliquei atrás, sobre ser falta de educação misturar as funções, e a função da responsabilidade é aquela com que menos coisas se podem misturar, especialmente o riso.

Imaginai que o vosso professor vos pede a rir para fazer um trabalho de casa. O que é que vós pensaríeis do professor? Se calhar nem sequer o levaríeis a sério e não iríeis fazer o trabalho de casa. Pois é, o riso cai muito mal com a responsabilidade. 

Por tudo isto, mas principalmente pelos receios de desordem na floresta, a águia, assim que a girafa lhe falou das suas ansiedades acerca do urso paranoico, logo ali viu uma oportunidade de mostrar a todos os animais da floresta como deveriam tratar o urso paranoico.

Combinou então com a girafa, que era visita habitual na casa do mocho pesquisador, que se deveria convencer o mocho a dar uma palestra para o urso paranoico. Uma palestra que o mocho teve algumas reticências em fazer, mas, vindo o pedido da girafa educada, não encontrou modo de recusar.

Estava então o urso debaixo de uma árvore, depois de uma leve refeição, que repetiu três vezes, de migas com carne de porco, sentindo ainda toda aquela gordura a tornar-lhe os lábios escorregadios, quando sente uns ramos agitando-se sobre a sua cabeça.

Viu então o belo mocho pesquisador, com as suas enormes asas ainda abertas, procurando a melhor posição para estar sobre o tronco onde tinha pousado.

– Boa tarde! Disse o mocho, dando um passinho para a esquerda e, de seguida, dois para a direita, procurando o lugar onde as patas se sintam mais confortáveis.

O urso sorriu para o mocho, que era um animal que ele até apreciava, pois sempre que o via achava que ele deveria estar a pensar em algo, e uma das coisas que despertava mais curiosidade no urso paranoico era saber o que os outros animais pensavam. Estariam também eles à espera de alguma espécie de terra de ouro e mel?

Tal era a curiosidade do urso paranoico, especialmente quando, depois das refeições, se sentava debaixo de uma árvore, que até procurava imaginar o que é que iria na cabeça dos macacos, esses que não pareciam ter nada para dizer sobre a existência, a não ser pular de ramo em ramo a brincar à agarrada.

Deixemos os macacos para depois e contemos o que se passou com a apresentação do mocho pesquisador.

Começou então o mocho por abrir e fechar as asas, pois sabia, em muitos anos de palestras, que essa era a melhor forma de começar por prender a atenção da audiência, que neste preciso momento era apenas constituída pelo urso, que olhava com um sorriso de amizade para a ave em cima do ramo e imaginava que talvez pudessem fazer a viagem juntos para a terra de ouro e mel.

Colocando na voz um tom de alguma profundidade, para realçar o poder de síntese da sua já avançada idade, o mocho pesquisador começou dizendo:

– Na minha longa existência, já pude observar todo o tipo de animal, mas aquele que mais me surpreendeu foi o geodésico, um animal que tem um braço muito comprido para ajudar os patos marrecos a escrever.

Melhor início não poderia ter havido, pois, por um lado, o urso nunca tinha ouvido falar de tal animal, e, por outro, o urso sabia bem o difícil que era ensinar patos marrecos a escrever. Com aquelas patas deles, não era nada fácil agarrar a caneta, e, para além disso, os patos marrecos eram conhecidos por serem, de todos os patos, aqueles que tinham maiores dificuldades de aprendizagem.

Isso encheu logo de curiosidade o urso paranoico, que imaginou se o geodésico não gostaria também de ir para a terra de ouro e mel. Até porque assim, pensou o urso, iriam, com certeza, um grande número de patos marrecos, que o geodésico, como profetizou o urso paranoico, deve andar sempre acompanhado da sua classe de patos marrecos.

Numa coisa não podemos deixar de gostar do urso, tem lá aquela paranoia com a terra de ouro e mel, acha que é o melhor sítio do mundo, de um mundo que não existe, é bem verdade, mas não se importa de levar outros animais com ele. O urso paranoico não quer ser o dono da terra de ouro e mel.

Tal como acha que pode ser amigo de todos os animais, está igualmente convencido de que todos os animais, assim o queiram, são bem-vindos e cabem na terra de ouro e mel, sem começarem à zaragata uns com os outros. Verdadeiramente, aquilo de que o urso está verdadeiramente convencido é que, na terra de ouro e mel, há ouro e mel que chegue para todos.

Ah, como ele desconhece como são os animais. Animais esses que, convocados pela águia, começam a se aproximar e a ouvir também a história do mocho acerca do animal geodésico. Primeiro foi um macaco, a quem a águia pediu para apoiar o queixo no punho fechado, como ocorria nos seus piores sonhos, coisa que o macaco, que era um dos maiores macacos de imitação que existem, se prontificou a fazer, sem de facto perceber bem o que estava a fazer. 

Vendo o interesse imediato do urso paranoico e sorrindo para dentro com a presença do macaco a fingir de pensador, o mocho pesquisador perdeu ali as reticências e as variadas dúvidas com que tinha aceitado fazer a palestra para o urso paranoico, prosseguindo com um renovado ânimo da seguinte forma:

– Após aturados estudos, chegámos à conclusão de que o verdadeiro problema do pato marreco ao escrever não é a pata, como usualmente se faz crer.

Aqui, o mocho pesquisador fez uma pausa, reparando que o urso paranoico continua a prestar atenção à sua palestra, e que mais animais se vão juntando. Agora só macacos já são quatro. Dois deles, também com a cabeça apoiada no punho, imitam o primeiro, e o quarto, que é um macaco que gosta de desfazer dos restantes, está a coçar a cabeça com as pontas das unhas da sua mão peluda, enquanto esboça um largo movimento redondo com o outro braço. Também o texugo engraçado se aproximou para ouvir, colocando um ar muito compenetrado de focinho no ar.

– Senão vejamos – continuou o mocho, abanando a cabeça de um lado para o outro – temos muitos patos que são verdadeiros eruditos, que aprenderam a ler na mais tenra idade. Por exemplo, o Patenstein e o Shropato, que, para além de serem dos mais sábios animais na sua área de conhecimento, também sabiam tocar piano.

O urso está boquiaberto, o Patenstein é uma verdadeira lenda na floresta, foi ele que ensinou os macacos que o caminho mais curto entre duas árvores não é a linha reta, mas sim a linha curva como resultado da alavanca dos ramos usados para passar entre árvores. Esse conhecimento fez com que o Patenstein fosse muito admirado em toda a floresta. Já o Shropato, outro mito da floresta, disse que nunca ninguém tinha podia assegurar que conseguia ver um fruto duas vezes seguidas no mesmo lugar. Ensinou que um fruto, umas vezes está no ramo e outras vezes não, tudo dependendo da estação do ano e até das brincadeiras dos macacos.

Deixai-me dizer-vos que a admiração do urso paranoico por estes célebres patos era enorme. Tão grande quanto ele verdadeiramente desconhecia o que eles tinham efetivamente dito. Ainda assim, lá na sua mente de urso obcecado com a terra de ouro e mel, interpretava o que eles diziam como uma confirmação de que ela tinha mesmo que existir, só que não se encontrava nem em linha reta, nem sempre estava lá, como muito bem tinham afirmado o Patenstein e o Shropato.

– Então, por que é que os patos marrecos não aprendem facilmente a escrever? – Prosseguiu o mocho, olhando com um disfarçado sorriso para a águia testaruda e a girafa educada, que agora se tinham juntado à assistência e punham o ar mais compenetrado que conseguiam.

O urso estava admiradíssimo de ver tanto animal junto, das mais variadas espécies. Até os macacos, esses brincalhões com quem o urso até simpatizava, pois o barulho das suas correrias era frequentemente o pano de fundo das suas meditações sobre a terra de ouro e mel. Lá estavam todos os animais assim, concentrados no que dizia o mocho acerca desse animal de que nunca tinha ouvido falar, o geodésico, e que afinal não só existia, como também ajudava os patos marrecos nas suas dificuldades de escrita.

– Pois é, – pensou o urso – bem me dizem que a terra de ouro e mel não existe, mas cá está o mocho pesquisador para mostrar que o que alguns pensam que não existe afinal existe mesmo, o que é preciso é olhar com os olhos certos.

– Como todos podemos observar, se fecharmos os olhos – e o mocho fechou os olhos, assim como toda a assistência, exceto a águia que girou a cabeça 360 graus tomando nota da presença de que animais estavam presentes – e compararmos o pato com o pato marreco, reparamos logo que este último é bem menor, quase metade do tamanho.

A verdade é que o urso fechou os olhos e nada viu daquilo que o mocho pedia para observar, pois quando estava de olhos fechados não conseguia evitar que a terra de ouro e mel lhe surgisse. Ademais, mesmo com os olhos abertos, o urso já a entrevia, por isso tomou como certa a afirmação do mocho de que os patos marrecos eram de menor dimensão.

Entretanto, chegaram mais um jacaré, dois morcegos e uma garça, que se foram colocar à frente da águia, que, quando os viu, lhes acenou com a cabeça.

– E essa, animais da floresta, é a razão da dificuldade dos patos marrecos, como têm a perna mais pequena, ficam com uma distância muito curta entre o cotovelo e a pata que segura a caneta, pelo que ficam com dificuldades em a manusear, uma vez que a caneta está sempre a bater-lhes no corpo.

Ouviu-se uma exclamação de satisfação na audiência, por os animais terem percebido a razão pela qual os patos marrecos tinham dificuldade em aprender a escrever. E pôde observar o urso, que agora já havia tantos animais a ouvir o mocho como ele nunca tinha visto juntos.

– Então, o geodésico é um novo tipo de animal — continuou o mocho pesquisador — que, com um braço muito comprido, ajuda o pato marreco a apontar a caneta um pouco mais lá à frente, de forma que nunca a parte de trás lhe bate no corpo. E basta uma semana de apoio dado pelo geodésico para os patos marrecos se habituarem a segurar na caneta corretamente e já passarem a escrever sem ajuda.

– Onde posso encontrar o geodésico? – perguntou o urso que não conseguia se conter quando se emocionava, e que já imaginava que ele deveria ter um braço maior do que o outro. Queria ver tal animal, dado que sentiu simpatia por ele logo que soube que o geodésico gostava de ajudar os patos marrecos.

– Então, o geodésico ficou dentro de uma das muitas tocas que o mocho tem, pois é um animal muito tímido. Respondeu-lhe com um sorriso trocista um castor já velhote, com o pêlo coçado, que, como que dando a palestra como terminada, passou pelo urso paranoico para ir aos seus afazeres.

Vendo os sorrisos na audiência e alguns dos animais a irem embora, o mocho pesquisador deu uns passinhos sobre o ramo, um pouco indeciso se tinha feito bem em contar esta história, mas logo a águia lhe piscou o olho deixando-o confortado.

Aqui podeis ver que história mais desinteressante, esta da palestra do mocho. Ademais, estás mesmo a ver que o animal geodésico não existe, e a história em si não tem uma graça especial. Contudo, peço-vos que não a esqueçais, pois dela iremos no fim retirar várias conclusões com as quais ireis aprender muito.

A Águia Testaruda

Como vêdes, foi uma grande partida que pregaram ao urso paranoico. Ademais, geodésico é um ponto que marca um local que serve de referência para se saber onde estamos. Os geodésicos servem para evitarmos que estejamos perdidos. O mocho pesquisador inventou um bom nome, pois os patos marrecos também estavam como que perdidos para conseguir escrever, necessitavam de saber onde colocar a mão na folha.

Quem não sabe mesmo às quantas anda é o urso paranoico, que acreditou que existiam geodísicos e que ainda por cima ajudavam os patos marrecos.

Foi por isso que, depois de os animais se terem ido todos embora, a águia testaruda ficou ainda um pouco por ali, sem se dirigir ao urso paranoico, de costas para ele, virando a cabeça com a facilidade com que as águias giram a cabeça, que a giram 360 graus se for caso disso, mas neste caso não virou toda, já que não queria encarar o urso paranoico, apenas o suficiente para o ver pelo canto do olho, e que o urso reparasse no riso miudinho que a águia fazia.

Deveis estar admirados, pois, como é que uma águia, que não tem dentes pode sorrir. Verdade, mas reparem que eu não disse sorrir, disse riso, e até lhe acrescentei a palavra miudinho. O que a águia fez foi um risinho miúdo, e isso é muito fácil de fazer mesmo quando não se tem dentes. Basta abrir um pouco o bico e abanar a cabeça com movimentos pequenos, mas rápidos, de cima para baixo, fazendo com que as penas se agitem um pouco. E assim fez a águia testaruda.

Estava a urso a sonhar de tal forma com o geodésico que, de início, não prestou muita atenção à águia. Esta deu por isso e ficou com cara de poucos amigos, que, como já vos devo ter dito, a águia anda sempre muita atarefada e o que a mais indispõe do que o tempo perdido, ou seja, o não fazer nada, é fazer alguma coisa sem resultados, que para a águia é um absurdo. Então, tanto tempo para preparar todo aquele teatro, para convencer todos os animais, para ter o urso como seu único espetador, e agora estava para ali boquiaberto, não dignava a assistir ao grande final que a águia tinha preparado, como se nada disto tivesse acontecido.

Foi então que a águia abanou as penas do rabo, primeiro devagar, depois mais rápido, de forma a tirar o urso do país dos sonhos e o trazer de volta à realidade.

Foi pela poeira levantada pelas penas da cauda da águia, que agora já batiam no chão, que o urso finalmente tirou os olhos de olhar para dentro e os colocou a olhar para fora, para as penas brancas e cinzentas da águia testaruda, e depois para a sua cabeça, que via um pouco de lado.

Dando pela atenção do urso, a águia voltou a colocar o risinho miudinho que trazia preparado sentindo as penas a eriçar com a expressão incrédula com que o urso fitava agora a águia.

Percebeu! – pensou a águia, sentindo o grande prazer de mais uma missão cumprida – Este urso agora vai ter mais cuidado quando se puser debaixo das árvores com a cabeça no ar.

Realmente, o que o urso pensou quando a águia o distraiu dos seus pensamentos foi que a águia testaruda devia ser muito diferente do geodésico. E como o urso era um animal que não ligava muito aos detalhes, foi apenas isso que pensou. Não se pôs a imaginar que uma teria bico e o outro não, que um teria penas e o outro escamas, não, nada disso, pensou apenas que seriam diferentes e era tudo, que o urso paranoico tinha a mania que via as coisas por dentro.

Quem percebeu tudo foram os outros animais. Que esperaram pelo regresso da águia testaruda umas árvores lá mais à frente, longe do alcance do olhar do urso, e que o saudaram de diferentes formas.

– Ganda espetáculo – disse o texugo engraçado, arreganhado rapidamente o focinho com um sorriso de orelha a orelha que mostrava todos os seus dentes – o urso foi hoje ainda mais caramelo do que costuma ser – e abanou a cauda para mostrar a sua boa disposição – foi o caramelo dos caramelos – arrematou olhando em volta para verificar que tinha colocado os outros animais a sorrir.

– Esse urso é mesmo como eu sempre imaginei que fosse – assentou a girafa educada, respondendo ao texugo, sempre preocupada com o que os outros pensavam dela, e olhando para a águia com admiração.

– Se calhar nem teria valido a pena fazer isto – como que se desculpou o mocho pesquisador, uma vez que ficou a pensar o que responderia se um dia o urso lhe pedisse para ver o geodésico.

O texugo e a girafa, que suspeitaram do que iria pela cabeça do mocho, logo lhe disseram em uníssono: valeu sim, não te preocupes, ó mocho, que o urso é um totó, vai ficar para ali a matutar, com o geodésico para cá e para lá, ainda é capaz de o imaginar na terra de ouro e mel, e dali não vai sair, que ele é um acanhado. 

Ouvindo isto, logo ali os macacos pensadores deram várias cambalhotas, para mostrar que estavam completamente de acordo com os comentários do texugo e da girafa, o que deixou o mocho mais descansado.

O jacaré abriu muito a boca enquanto revirava os olhos como que concordando. Que os jacarés são animais de poucas palavras e quando abrem a boca é quase sempre para comer. Neste caso, o que o jacaré pretendeu dizer foi que se tivesse o dom da palavra, com certeza diria uma ou duas belas frases acerca do excelente desempenho do mocho pesquisador, assim como sobre o engenho da águia, não esquecendo o espírito arguto da girafa e os comentários sempre bem humorados do texugo engraçado. A verdade é que o jacaré conseguiu dizer tudo isso apenas abrindo a boca com um ângulo de 60 graus. E quando a fechou, sem nela depositar qualquer tipo de alimento, foi como se todo um belo discurso tivesse sido dito. É pois o jacaré um animal de poucas palavras mas de determinadas opiniões.

Os dois morcegos comentaram, um com um outro, que a intervenção do mocho tinha sido escura como a noite, ainda que tivesse sido feita de dia. Ademais, informaram os restantes animais que o urso tinha uns comportamentos muito estranhos, que passava muitas noites de olhos abertos a olhar para as estrelas. E como é que os morcegos sabiam isso? Pois a luz dos olhos do urso muitas vezes os incomodavam quando iam pela noite fora à procura de insetos e outros alimentos. Sobre a águia, só puderam afirmar que não há animal diurno que veja com tal clarifidência como eles veem de noite. E reparai que esse é o maior elogio que pode ser feito por morcegos a animais que caçam de dia.

Já garça também sentiu a necessidade de exprimir a sua opinião. Já que cada um dos animais da floresta tinha dado a sua, e a garça, tendo migrado recentemente com a primavera, achou importante fazer parte deste grupo de animais, pois até ao outono iria ficar por esta zona da floresta. Nisso a garça não destoou dos restantes, pois embora procurasse ser muito concisa e precisa nas palavras, não quis ser menos do que os outros animais, dizendo que o plano da águia tinha sido muito bem engendrado e que agora se percebia que o urso paranoico era uma cabeça no ar, com algum parlapié mas pouca substância, e que tinha a certeza que, com tudo o que aconteceu, tinha ficado a pensar na terra de ouro e mel, e que ele não pensava em nada mais do que nisso.

E assim foi, todos os animais concordaram com o que se foi dizendo, e olharam para a águia testaruda com um misto de respeito e admiração. Alguns acharam-na distinta pelo corte do bico, cuja ponta de cima cobria completamente a ponta de baixo, dando-lhe um ar solene. A outros, foram os olhos penetrantes, reveladores de perspicácia e sabedoria. A todos, a águia lhes pareceu um animal sério, mesmo muito sério.

A águia, dada a sua grande humildade, embora satisfeita com os comentários, não mais fez que uns trejeitos de olhos, uns entreabrires de bico, um quase nada, e, no máximo, um ligeiro levantar de ombros que davam a ideia que ia abrir as suas enormes asas, ainda que nunca o fizesse. Não obstante, a cada alçar de ombros da águia, todos os animais ficavam mais convencidos da sua importância e do como ela dava já pouca importância a este assunto, como se fossem já águas passadas.

A verdade é que para todos os animais da floresta, se ainda não era claro, agora ficou, que o urso era um animal não só paranoico, como muito fácil de enganar.

Curiosamente, ou não tanto, o único animal que não estava convencido que o urso era paranoico e muito totó era, imaginem, o próprio urso. Por muito que a águia tivesse abanado as penas do rabo, para o urso aquilo não tinha nenhum significado, mas que o geodésico, um animal que não existe, era o oposto da águia testaruda, um animal que existe e que é conhecida por todos os animais.

Reparem que a conclusão do urso não deixa de ser verdade. O geodésico e a águia não têm nada a ver um com o outro. E alguns de vós até podeis estar a pensar que afinal o urso não é assim tão idiota. Só que a realidade é bem outra. O urso ficou convencido que o geodésico existe, e se é diferente da águia não é, com certeza, por aquilo que o urso estava a supor.

A Tartaruga Branca

Um dos animais que assistiu à apresentação do mocho pesquisador, foi a tartaruga branca.

Como deveis imaginar, a tartaruga branca é, como todas as tartarugas, um bicho achatado que se desloca coçando a barriga pelo chão. Mas o que esta tartaruga tem de especial é que tem a carapaça branca e é muito boazinha.

Quanto à carapaça, mais parece ser uma encaracolada cabeleira toda branca do que uma carapaça. Quando olhamos para ela ficamos com vontade de lhe tocar com a mão para sentir como é que todos aqueles fios brancos se esboçam na queratina da carapaça.

O que é a queratina? Perguntareis alguns de vós.

Bom, a queratina é uma proteína que dá uma textura dura aos tecidos. Por exemplo, as unhas são duras pois têm queratina. Como estais a ver, da mesma forma que muitas senhoras têm as unhas pintadas com bonitas cores e desenhos, também assim era a carapaça da tartaruga branca, ainda que de cores tenha apenas o branco, que há quem diga que não é cor nenhuma.

A verdade é que muitas amigas da tartaruga, outras tartarugas até, já lhe tinham dito: 

– Por que é que tu não pintas a tua queratina com diferentes cores?

Ao que a tartaruga branca sempre respondia, com um sorriso bondoso nos pequenos olhos de tartaruga:

– Por que eu não me importo com o aspeto, para mim o mais importante é ser boazinha.

Alguns de vós, que procurais ver para além das palavras, deveis estar a pensar que a tartaruga boazinha se preocupa de facto com o aspeto, quer parecer boazinha, e acha que a melhor forma é através daquela carapaça branca que, como disse, é de cor nenhuma.

Isto é algo que se passa com frequência na floresta. Há animais de todas as cores e, depois, há alguns que preferem dizer que são de cor nenhuma. Normalmente, estes acham que, por causa disso, gostam de todos os animais, independentemente da cor que eles têm.

E foi por isso que, depois de a águia testaruda se ter afastado do urso paranoico e ter regressado ao caloroso convívio opinador dos animais da assembleia, a tartaruga branca arrastou o seu bom coração para junto do urso.

A verdade é que o urso não deu por ela, com a cabeça no ar que ele tinha, sempre a pensar na terra de ouro e mel.

Já depois de estar um bom bocado ao lado dele, e de o observar com os seus pequenos olhos de tartaruga, lá ela se resolve a iniciar uma conversa:

– Está tudo bem? – perguntou a tartaruga branca com a voz mais boazinha que conseguia fazer.

O urso paranoico, um desmiolado, sempre com a cabeça no ar, olhou primeiro para cima, a pensar que poderia ser a girafa, que por alguma razão ultimamente lhe surgia das formas mais inesperadas. Depois, achou que do meio dos ramos viria aquela voz, imaginando que talvez fosse algum macaco pronto para iniciar a sua macacada e só por fim procurou em baixo, e não ireis acreditar que mesmo assim foi para o lado esquerdo, que era aquele onde não estava a tartaruga, para finalmente dar pela tartaruga calmamente sentada à sua direita com o seu sorriso compassivo encimado pela frondosa carapaça branca.

Então, em vez de responder, como deve fazer todo o animal de bem. Ficou a pensar no que significava aquela pergunta, pois, sendo o urso paranoico um animal que vivia na sua cabeça, achava que todo o mundo era feito de palavras e, como tal, achava que tudo deveria ter um significado nesse seu mundo. Por incrível que pareça, de todas as vezes que a tartaruga lhe fazia a mesma pergunta, o urso paranoico questionava-se sobre o que é que a tartaruga branca quereria dizer, pois cada vez que ela a fazia, o mundo do urso paranoico já se tinha alterado pelas palavras que entretanto por lá tinham passado, desde a última vez que lhe perguntaram se estava tudo bem.

Por isso mesmo, por não conseguir encaixar aquela pergunta boazinha no seu mundo de urso paranoico, demorava ainda mais a responder, ficando a olhar para a tartaruga, para a sua carapaça de queratina branca, para a forma como a agitava no esforço de esticar o pescoço para olhar para o urso lá em cima, convertendo tudo o que via em novas palavras no seu cérebro e tentando perceber como é que estas palavras transcritas do que via se conjugavam com as palavras que tinham saído da boca pequena da tartaruga. Tudo isto, como estareis de certeza a imaginar, ainda lhe dava um ar mais paranoico.

Ademais, e isto tenho que vos dizer, ainda que saiba que vos vai deixar indispostos, mas é da mais pura verdade: o urso paranoico não se agradava da tartaruga branca.

O que será isto do urso não se agradar da tartaruga boazinha? 

Bom, o urso, que é um animal muito complicado, paranoico mesmo, como já falámos, quando estava ao pé da tartaruga branca, ficava sempre com a impressão de que havia alguma coisa por dizer. Até já tinha pensado nisso, que o urso não sabia fazer outra coisa senão pensar, e tinha concluído que era por ela ser boazinha. Era, portanto, convicção do urso que os animais bonzinhos nunca estariam na terra de ouro e mel, uma vez que, para ele, uma vez que chegasse à terra de ouro e mel, estava convencido de que iria dizer tudo o que lhe ia na alma, e, muito, muito alto.

Disso andava muito desconfiada a águia testaruda, para quem dizer muito alto o que nos vai na alma, é o pior que pode acontecer numa floresta, uma vez que nunca se sabe muito bem o que vai na alma de cada um dos animais, e, como se costuma dizer, cada animal a sua sentença. Foi também esta uma das razões da partida que se pregou ao urso; só de pensar em todos aqueles macacos a dizerem o que lhes vai na cabeça deixava a águia sem conseguir dormir descansada.

Então, depois de pensar tudo isto. Depois de medir mais uma vez a tartaruga de um lado ao outro, de tentar perceber se a forma como desta vez esticava o pescoço diferiria da forma como tinha esticado das outras vezes, a única coisa que acorria dizer ao urso paranoico era:

– Tudo bem, e contigo também?

Vede bem como este animal é. Pensa, pensa, pensa e depois nada. Não teria sido mais simples ter dito logo o que acabou por efetivamente a dizer?

Tem a ver com a mania que tem de ser amigo dos animais. De, como vimos, levar o bom dia e boa tarde que é dito no elevador muito a sério. Só que na floresta não há elevadores, mas muitos animais podem-se cruzar por puro acaso e o que dizem serve apenas para deixar claro: não me mordas a mim que eu não te mordo a ti.

E assim, meus meninos, podeis ver que até com um animal tão bonzinho como a tartaruga branca o urso porta-se como ele mesmo é: como um urso paranoico. 

Moral da História

Deveis estar um pouco surpreendidos com esta história que parece não ter início nem fim. Uma história de animais, como todas as boas histórias devem ser, mas que parece não ter nenhuma conclusão que se veja, quanto mais que se entenda.

Estou certo de que o que mais vos estará a surpreender é que até parece que o urso não é um mau animal. Verdade que não é o lobo do capuchinho vermelho, mas esse é que é mesmo o objetivo desta história: deveis ter cuidado com os animais como o urso paranoico, que parecem não fazer mal a uma mosca e que passam o tempo com a cabeça no ar.

São animais muito perigosos, pois criam vícios na floresta, tornando a vida impossível a todos os outros animais. Por isso, aqui vai um conjunto de regras morais que deveis seguir, por forma a nunca serdes como o urso paranoico, ou vos deixeis contagiar pelas suas ideias tresloucadas:

– Na floresta há animais espertos que sabem bem como a floresta funciona. Esses animais merecem toda a nossa consideração, pois, por muito certos de alguma coisa que nós possamos estar, haverá de certeza alguma coisa que nós não estamos a considerar e o animal esperto da floresta saberá, na altura certa, nos fazer notar isso. Que melhor exemplo desta máxima do que a águia testaruda com a partida pregada ao urso paranoico para ele ver como a terra de ouro e mel não é desta floresta.

– Quando estiverdes na floresta, por muito engraçados, e até endiabrados que sejais, deveis, mesmo sem ser necessário que isso vos seja solicitado, tentar perceber o que é que os animais espertos da floresta pretendem de vós, e fazer isso mesmo. Enfim, segui o exemplo do texugo engraçado.

– Por muito dotados que sejais, quer de inteligência ou de outros atributos, não deveis pensar que só vós existis, também há todos os outros animais e, entre eles, sempre haverá os animais espertos, pois, no fim de contas, na floresta, mais tarde ou mais cedo, todos os animais precisarão uns dos outros. Que melhor imagem para esta máxima do que o mocho pesquisador na sua palestra em cima do seu ramo.

– Se por acaso tivestes a sorte de nascer altos e tudo podeis perscrutar, então não deixeis de tirar partido dessa vossa qualidade e procurai os animais espertos, se eles não vos procurarem primeiro, pois eles muito se agradarão dos vossos atributos, o que vos facilitará muito a vida na floresta. Reparai como à girafa educada só lhe bastava isso mesmo, tudo ver e ser educada, para imediatamente fazer parar toda e qualquer macacada.

– Deveis ser amigos de todos os outros animais, mas isso não quer dizer que o deveis ser de todos mesmo, pois há sempre animais que têm a mania de que existe alguma coisa para além da floresta e estão lá como se lá não estivessem, e estes animais não nos levam a lado nenhum. De que serviu a bondade da tartaruga branca? Valeu de alguma coisa ter arrastado o seu bom coração para junto do urso paranoico? Reparai como o urso paranoico até foi mal-agradecido com a tartaruga boazinha.

– E acima de tudo, nunca, nunca sejais como o urso paranoico!

Como conclusão, só vos posso dizer que, se seguirdes estas máximas, tereis uma boa vida na floresta e nada vos faltará.